Villa-Lobos ainda tem algo a dizer, 60 anos depois da sua morte

Artigo publicado no Jornal da USP

Por Vitor Ramirez, estudante de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP


Em novembro de 1930 um artigo muito elogioso ao compositor carioca Heitor Villa-Lobos – que morreu no dia 17 de novembro de 1959, portanto, há exatos 60 anos – foi publicado na Revue Musicale, de Paris. Nesse artigo, escrito a partir de relatos pessoais de Villa, conta-se que entre 1909 e 1912 ele realizou uma ampla viagem através do Norte e Nordeste brasileiros. Villa teria integrado missões científicas, principalmente alemãs, que passavam por locais ainda habitados por índios. Em uma dessas viagens (relatada em um outro artigo francês escrito por Delarue Mardrus) o compositor foi capturado pelos índios e condenado a ser comido assado. Mas enquanto Villa distraía seus anfitriões antropófagos dançando um fervoroso maxixe ao som de maracás e japurutús, os demais integrantes da missão científica descobriram seu paradeiro, invadiram a tribo e mataram a todos, salvando o compositor.


Em uma outra história, a musicóloga Mercedes Reis Pequeno relata que enquanto Villa residia em Paris, ele costumava receber seus convidados vestindo um traje feito do mesmo tecido que decorava seu apartamento. A similaridade entre o padrão visual de sua roupa e o das paredes criava a ilusão de que sua cabeça flutuava, deslocando-se sem nenhum corpo.



A criatividade dessas e de outras histórias corroborou o sucesso dos concertos de Villa durante o período em que ele esteve na Europa, entre 1927 e 1930. Em se tratando de comentar sua própria música, Villa, falando de si mesmo em terceira pessoa, não foi menos imaginativo (ou sincero): “Ele não precisa esperar por inspiração. Qualquer contorno, qualquer gráfico pode lhe servir para criar uma melodia. Assim ele traçou o contorno da Serra da Piedade, cadeia de montanhas próxima a Belo Horizonte, transferiu-o para o papel milimetrado, harmonizou-o e assinou ‘Milimetrada e harmonizada por H.V.L.’.”


Caso essas invenções fossem apenas peças de articulação publicitária que legitimassem um criador medíocre, então a obra de Villa não sobreviveria ao tempo, e suas Bachianas, Choros e Cirandas seguiriam estéreis. Villa sequer teria chamado a atenção de um crítico como Mário de Andrade, para o qual a obra do compositor era um “repositório incomparavelmente rico dos fatos, das constâncias, das originalidades musicais do Brasil”. Mas se acreditamos em uma imaginação que transborda para outros campos da vida do artista (de um compositor cuja “obra é consequência da predestinação”), como essa capacidade criadora se manifestou na obra de Heitor Villa-Lobos?


Uma possibilidade aventada por Willy Corrêa de Oliveira, compositor e professor aposentado da USP, é de que a obra de Villa é uma originalíssima solução tropical, brasileira, à situação de crise de linguagem que atravessou a música erudita desde a primeira metade do século 20. Tal como outros criadores, como Béla Bartók, Charles Ives e Arnold Schoenberg, Villa “não havia encontrado uma língua erudita viva, falada por toda a gente, razão pela qual ele foi obrigado a fazer de conta que existia uma língua viva através da qual ele se comunicaria. E assim foi que ele lançou mão de tudo que pudesse servir como fonemas, inflexões, entonações de uma língua possível.” Objetivamente, encontramos em suas criações a confluência da música de origem folclórica, da música popular existente no Brasil do início do século 20, da música erudita francesa de passagem pelo Rio e dos experimentos futuristas de compositores de vanguarda, como por exemplo Edgar Varèse.


O particular da solução encontrada por Villa é a imaginação com que diferentes entidades musicais (às vezes antitéticas) se articulam dentro de uma mesma composição; segundo Oliveira, algo parecido com as collages de Kurt Schwitters. Tal como os tickets, etiquetas, velhas gravuras, recortes e retalhos de pano reunidos nos trabalhos do artista alemão, Villa juntava fragmentos das músicas que conhecia e armava um mosaico milagroso, de beleza que às vezes não se elucida pela lógica musical.


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